Minha bisavó Alcídia era uma mulher mulata, quase negra, magra, vestida sempre com roupas de algodão clarinhas .Trazia os cabelos em trança invariavelmente cobertos por um pano branco. Nunca lenço.Sempre um pano , dobrado em triângulo.Branco, branco.
Reinava absoluta na casa encantada além da cerca de fícus e do alto portão, espécie de portal mágico.
Tinha um sorriso doce que desarmava qualquer pirraça.
Sabia fazer doces , pastéis em casa e uma inesquecível carne assada. Fazia-os em fogão de querosene. Na parede atrás do fogão , havia sempre um alvo pano( ela adorava panos, com crochê e sem crochê) bordado com figuras de cozinheiros e ditados populares .Uma para cada dia da semana. Eu sempre via a do domingo onde estava bordado em ponto cheio:Devagar se vai ao longe.
Sempre desconfiei do fato de fosse uma fada disfarçada. Sabia fazer chás para curar todas as coisas. Atrás da porta de sua cozinha ,havia um saco de algodão branco com toda sorte de ervas que ela mesma colhia ou ganhava de inúmeras parentes.
Sabia rezar a gente contra quebranto e mal olhado . Fazia isto abrindo e fechando uma tesoura velhíssima enquanto recitava palavras incompreensíveis.Sagradas decerto.O certo é que todos os domingos, antes da volta para casa, ela nos rezava .Um por um. E a gente , eu , pelo menos, se sentia bem. Invulnerável.Protegida. Sei, hoje, que o que fazia efeito eram a força de sua fé e,sobretudo , de seu amor.
Tinha um sorriso mais doce do que os doces que fazia e servia em compoteiras azuis,verdes,enfeitadas de passarinhos.Moravam as compoteiras em uma cristaleira ao lado de pequenas xícaras douradas. Que fim terão levado?
Nunca mais vi sorriso mais doce.
Outro motivo pelo qual eu sempre achei que fosse uma fada era que ela tirava água do poço.Fez isto até os 90 anos, mesmo depois de ter água tratada na torneira. Dizia que não era boa de beber.Ia ao poço , debaixo da amoreira e lá ficava sempre um tempinho.Menina ainda, ficava à espreita e via-a demorar-se um tanto.Quem sabe o quê fazia? Descansava? Consultava o mágico espelho das águas? Desencantava algum sapo errante?Nunca soube. Seus gestos eram serenos, silenciosos, precisos.Sempre me fascinaram.
Assim como vovô, tinha lá seus rituais. Todos os domingos,quando o almoço estava pronto e vovô com nossa admiração já havia surrupiado o pãozinho com carne assada, ela nos chamava em procissão. Seguíamos atrás dela, da cozinha para a sala de móveis lustrosos,enormes , antigos. Do armário que ela nomeava bufê, com entalhes e firulas, tirava, sorrateira,uma garrafa de vinho Moscatel e um cálice . Enchia-o e nos levava à boca,dando “ um golinho só pra cada um de nós, que é bom para o sangue. “
Almoço na mesa de toalha branquinha. Nunca se sentava. Esvoaçava ao nosso redor, servindo-nos , mimando-nos.
O tempo passou .A vida foi indo. Dia de grande alegria foi o que levei meu filhote Hugo,neném recém chegado para que ela o conhecesse e abençoasse. A ternura se derramou de todo o seu ser. Não tinha mais a tesoura, mas rezou-o ainda assim. Era uma mulher feliz. Tararavó.
Há alguns anos, aconteceu um caso de embatucar. Precisei dela, muito, por muitas dores de vários tipos, e rezei pedindo ajuda. Uma doçura infinita me invadiu ,mais notável que o alívio imediato.
Dias depois, em domingo de mesa alegre com cozido e amigos, uma amiga indo buscar algo em meu quarto, voltou de lá de olhos arregalados.Quase tive que espremê-la para que me dissesse ressabiada: -‘Vi uma velhinha em seu quarto.”
-Como era?-perguntei como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Marisol passou a descrever em detalhes minha avó Alcídia de quem jamais vira foto ou descrição. Falou dos olhos e do sorriso doce , das roupas com que se apresentava e do costumeiro paninho.
Peguei o surrado álbum onde figuram inúmeras velhinhas. -Aponte aí qual é, desafiei.
Olhou página por página e quando o semblante sereno de vovó surgiu dos confins do tempo, apontou sem dúvida ou medo:-É esta.Estremeci.Era a foto de vovó Alcídia que das vastidões do Mistério nos sorria.
-Onde a viu?
-Em seu quarto.
-Sim, já sei. Mas onde nele?
-Sentada na beirinha da cama .Sorriu quando entrei.
- Hum …. de que lado da cama?
- Do lado da janela.
Marisol nunca soube que aquele era justamente meu lugar favorito.Daquela janela podia-se ver a cidade lá embaixo e magníficos pores do sol .Era ali que ,naqueles dias , me sentava pra pedir colo em forma de orações . Sempre às 18 horas.Hora mágica. Hora do ângelus .
Como dizia Macunaíma: – “ Não sei.Só sei que foi assim.
Entre muitas outras lições que aprendi com vovó , uma me ficou bem guardadinha. Ela e outros seres generosos me ensinaram que a única realidade é o Amor. Que ele transcende todos as lonjuras. Estava certa minha avó.
Ana Lucia de Mattos


